A reprodução da desigualdade racial através da reprodução da violência simbólica

Por Michel Aires de Souza

              O nosso objetivo  é desvelar os mecanismos da reprodução da desigualdade racial. Por que esta desigualdade se reproduz? Quais são seus mecanismos? Como o preconceito e a discriminação se perpetua? O que procuramos demonstrar é que o racismo não se consolida mais como um conjunto de teorias ou idéias que justificam uma hierarquia entre raças ou etnias, mas que ela se perpetua ao nível do simbólico e da representação, muitas vezes de modo inconsciente e mecânico. Em conseqüência disso, é por meio  da violência simbólica, entendida como um conjunto de símbolos e representações agressivas e discriminatórias, que o preconceito e a discriminação se manifestam.        

        O maior símbolo do preconceito e da discriminação é representado pelos baixos índices socioeconômicos da população negra e pelo acesso desta às posições na pirâmide social. 

        A educação que é vista como o meio para se ascender na pirâmide social, apresenta ainda muitas disparidades. Enquanto os brancos estudam 8,8 anos, os negros passam apenas 6,8 na escola.  Dos que chegam à faculdade apenas 2,2 conseguem concluí-la. Se considerarmos os pardos como negros esta taxa aumentaria para 19,1 contra 77,8 dos brancos.* Na saúde a disparidade continua. Enquanto 54% dos atendimentos e 59% de internações nos SUS são de brancos, esses índices sobem para 76% e 81% respectivamente na população negra. Também é uma porcentagem pequena dos negros que possuem planos de saúde chegando a 14,7% em relação aos 32% de brancos que o possuem. 

     Em relação ao desemprego as mulheres são mais injustiçadas, primeiro por serem mulheres e segundo por serem negras. A taxa de desemprego das mulheres negras é de 12,4%, enquanto a das mulheres brancas é de 9,4%. Entre os homens negros a taxa de desemprego é de 6,7%, enquanto a taxa de desemprego dos homens brancos é de 5,5%. 

     A precariedade aumenta em relação ao recebimento do  bolsa família. Do total de famílias que recebem a bolsa família 69% são chefiadas por negros, mostrando que eles representam a população mais pobre do Brasil. Esta idéia também pode ser corroborada pelos dados de moradias nas favelas. São dois milhões de domicílios que ficam na favela, formando um contingente de oito milhões de pessoas. Desse montante de residências 66,1% são chefiados por negros enquanto 33% são chefiados por brancos.   

         Está  claro que os baixos índices socioeconômicos da população negra e a desigualdade de oportunidades demonstram que no Brasil há preconceito e discriminação racial.      

Quadro de Juliana Duclós
Quadro de Juliana Duclós 

Mas como o preconceito é aprendido? Como ele é assimilado e internalizado no imaginário popular?   Ele é aprendido  do convívio social desde a primeira infância em seu convívio com os pais e, mais tarde, através das práticas sociais, na escola, nas ruas, nas empresas, nas instituições e na mídia. O preconceito se acumulou desde a escravidão criando representações sociais e experiências  de subjugação e subalternidade que foram internalizadas tanto no negro como no branco. “A complexidade das relações raciais na sociedade brasileira foi construída com base no processo de escravização de africanos. Isto foi o que criou, ao longo de séculos de história, tanto no escravizado quanto no escravocrata, representações sociais e experiências de subalternidade que são, do ponto de vista individual, de uma fundura simbólica imensa, e que produzem, do ponto de vista social, um engessamento de lugares e de hegemonia”. (Lopes, 2007, 17) 

          O racismo tornou-se natural em nossa atualidade, se naturalizou a tal ponto que se transformou num mecanismo inconsciente e automático. O preconceito se manifesta a níveis de representações e expressões que se solidificaram como fósseis correspondentes a estados de primitivismo na mente dos indivíduos. “As expressões que denotam o preconceito racial estão de tal forma impregnados na nossa sociabilidade que já ficaram naturalizados no nosso cotidiano, como padrão predominante de comportamento (…) (Lopes, 2006, p.22)    

         É no imaginário social que o preconceito insiste em se perpetuar. Brincadeiras, piadas, representações, classificação, conceitos, opiniões, certezas, categorias, achismos são os produtos e ingredientes simbólicos do preconceito e da discriminação racial.  As categorias criadas no dia- a -dia não podem ser ignoradas, nelas encontram-se o lugar da desigualdade. Bombom, moreninho, neguinho, mulatinho, entre outros são categorias afetivas que insistem em agrupar os negros em sua dessemelhança em relação aos brancos.  Você é um negro e não um branco.   “Essa origem da classificação por cor é carregada de um conteúdo marcadamente discriminatório, e com ele vêm junto conceitos, opiniões e certezas que informam, ao longo da nossa história, o lugar de cada um – brancos e negros – no imaginário social” (Lopes, 2007, p.17) 

      Há também uma série de termos simbólicos que insistem em apagar, encobrir, disfarçar a origem étnico-racial. Os eufemismos como moreninho, moreno, moreno claro, escurinho fazem parte da etiqueta social procurando suavizar a cor negra, como se ela fosse algo ruim ou como se fosse má educação se referir a alguém como negro.     

        Há também muitas frases faladas no cotidiano que soam de forma natural e que reforçam o sentimento de desprezo ou de inferioridade.  Geralmente são frases com premissas ocultas.  “Nossa como ele é bonito para um negro”; “Ele que é o dono de tudo isso?”; “Eu quero uma meia-calça cor de pele”, “Adoro negras, são ótimas empregadas”, “Por que você não alisa o cabelo, vai ficar bonita”. “Maria faz parte da família, é uma negra feliz”. 

       Também não podemos nos esquecer das piadas racistas que sempre são faladas em tom de brincadeiras e acompanhadas de risos, reforçando o preconceito racial: “é preto, mas é inteligente”; “é preto, mas é bonito”; “ninguém mandou ter cabelo ruim”; “quando não caga na entrada, caga na saída”. Apesar dessas brincadeiras serem feitas entre amigos ou parentes, não podemos negar que elas são de extremo preconceito e discriminação reforçando e perpetuando no imaginário popular a desigualdade racial. 

           Em conflitos o preconceito se manifesta abertamente. Numa  desavença é comum o preconceito ser manifestado por meio  de xingamento racista como “macaco”; “urubu”;  “negro”, “nego fedorento”; “negão”. É mais comum esse tipo de agressividade entre alunos nas escolas. Geralmente o professor é complacente ou somente  chama a atenção do aluno, mas não faz um trabalho de conscientização permitindo assim que o racismo se manifeste e se perpetue no ambiente escolar. 

        O corpo e as expressões corporais  são uma linguagem e como tal manifestam também o preconceito.  Muitas vezes o preconceito é manifesto em gestos e expressões faciais: um sorriso de escárnio, um olhar dissimulado, a indiferença, a arrogância.          

       O preconceito se manifesta não somente pelo que é dito, mas também pelo não dito, não falado, não mostrado. A escola é o lugar privilegiado da socialização onde os jovens devem aprender valores e regras do convívio social. É também o lugar da transmissão, estudo e reflexão de nossa identidade, cultura e formação. Contudo, na escola a história, a cultura, a música, os feitos dos heróis negros são esquecidas. Segundo Ana Lucia Lopes, coordenadora do Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil, “o currículo não é um elemento neutro e desinteressado na transmissão de conteúdos do conhecimento social. Ele esteve sempre imbricado em relações políticas de poder e de controle social sobre a produção desse conhecimento. Por isso, ao transmitir visões de mundo particulares, reproduz valores que irão participar da formação de identidades individuais e sociais e, portanto, de sujeitos sociais.” (Lopes, 2007, p.16). A escolha dos conteúdos nas escolas ao privilegiar o ponto de vista da história do branco e de sua cultura reproduz o preconceito e a discriminação. Essa omissão prejudica a formação e construção da identidade da criança negra, prejudicando sua auto-imagem e auto-estima. Além disso, prejudica o prestígio social e histórico da população negra e mestiça, perpetuando a desigualdade racial. 

        O grande problema do preconceito no Brasil é que ele é velado, foi assimilado culturalmente, tornando-se muitas vezes inconsciente. “A conseqüência disso, sabemos bem, é a dificuldade de combater o nosso preconceito, que em certo sentido tem, pelo fato de ser variável, enorme e vantajosa invisibilidade.” (Matta, 1984, p.43)  O caminho para acabar com o preconceito esta na educação. É necessário educar as novas gerações dando visibilidade à cultura, à história, à música, aos valores e à religião dos afro-descendentes.  “É preciso olhar mais de perto as experiências escolares que essas crianças e jovens vivenciam. A escola precisa aprender, para assim propor situações de aprendizagem que considerem a presença fundamental dos negros e mestiços em nossa sociedade e, com isso, proporcionar, no currículo cotidiano, outros encontros  identitários, mas, dessa vez, de inclusão, de sucesso e, portanto, de aprendizagem positivas.” (Lopes, 2007, p.16-7)      

* Os dados presentes neste texto  fazem  parte do documento “Retrato da desigualdade de gênero e raça”, publicado em 2008 pelo “Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas” (Ipea), em parceria com o “Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para Mulher”  (Unifem) e a “Secretaria Especial de Políticas para mulheres e Homens Negros”  (SPM) 

Bibliografia 

LOPES, A.L. Currículo, escola e relações étnico-raciais. In: Educação, Africanidades, Brasil. Brasilia: Editora UNB, 2007 

LOURENÇO, C. Racismo, a verdade dói. Encare. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2006 

DAMATTA, R. O que faz o brasil Brasil? Rio de janeiro: Rocco, 1984

A banalização do mal.

Por Michel Aires de Souza

Eu estou depressivo(…) sem telefone(…) dinheiro para o aluguel(…) dinheiro para o sustento de criança(…) dinheiro para dívidas(…) dinheiro!(…) Eu estou sendo perseguido pela viva memória de matanças, cadáveres, cólera e dor(…) pela criança faminta ou ferida(…) pelos homens loucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policial, assassinos(…)                                                    Trecho de sua carta de suicídio

          Este trecho é de uma carta de suicídio do fotógrafo sul-africano Kevin Carter(1960-1994) ganhador do premio Pulitzer em 1994. Ele fotografou uma criança faminta, sem forças, rastejando para um campo de alimentação, há um quilômetro dali. Ao lado um urubu observa e espera a morte da criança para poder devorá-la, como se já soubesse apriori e esperasse a morte chegar. Carter observou durante vinte minutos, achando que o urubu fosse embora, como não foi, espantou-o e saiu rapidamente dali. Nesta atitude está todo o peso de seu sofrimento e suicídio. Ele se culpou por não tê-la salvo e refletiu sobre si mesmo naquela cena: “um homem ajustando suas lentes para tirar o melhor enquadramento de sofrimento dela, talvez também seja um predador, outro urubu na cena”.

             Por que Carter não a salvou? O que ele pensava? Qual era sua preocupação? Eu não teria pensado duas vezes, a salvaria e a alimentaria. Fico perplexo quando penso que não a salvou. Quando vi essa foto não consegui dormir, fiquei um mês pensando naquela cena. Hoje consigo pensar melhor sobre o fato, consigo entender um pouco mais Carter. Todos nós, filhos da modernidade, somos espectadores de uma experiência empobrecedora que melhor se conceitua como guerra, fome, miséria, repressão e barbárie. No mundo moderno o mal se tornou comum, é parte da cena cotidiana. O mal se banalizou. Tornamo-nos insensíveis a desgraça alheia. Carter, como fotógrafo, acostumou-se a captar o cinéreo, o claustro e o frívolo em suas fotografias. Acostumou-se a experimentar o mal. Mas pagou um preço alto pela banalização do mal. Quando refletiu sobre a cena, sentiu náusea, culpa, remorso. Suicidou-se. Foi o preço que ele pagou por sua falta de piedade. Digo piedade, pois é por meio desse conceito que podemos entender Carter. O leitor entenderá melhor o que estou dizendo.

            Segundo Rousseau o que diferencia o homem do animal é o fato de ele ser um “agente livre”. Do ponto de vista moral, ao contrário dos animais, que seguem as regras da natureza, o homem é dotado de vontade e tem consciência de sua liberdade. Ele pode fazer escolhas, não se limitando as regras prescritas pela natureza. O homem é um ser moral, dotado de vontade e de livre arbítrio. Carter teve que fazer uma escolha moral, salvar ou não salvar aquela criança? Ele não a salvou, deixou-a aos urubus. Mas por quê? O que ele temia? Não sabia que ela ia morrer? Será que faltou piedade a Carter? Outra característica que diferencia o homem do animal, segundo Rousseau, e que foi responsável por torná-lo bom e sociável, é a piedade, entendida como uma “repugnância inata de ver sofrer seu semelhante”. Parece-me que Carter não experimentou esse sentimento. Sua   piedade falhou? Mas por que ela falhou? Por que ele não sentiu piedade naquele momento?

                 A falta de piedade no momento da cena tem uma explicação filosófica. Segundo Theodor Adorno, um dos principais filósofos do século XX, a principal característica da sociedade de massas não é somente a perda da individualidade, mas a perda da sensibilidade, ou seja, a insensibilidade do homem moderno. Somos herdeiros da apatia burguesa. O homem moderno vai ficando apático aos acontecimentos até se tornar completamente insensível. Ele é convidado a nada mais que compartilhar da experiência brutal e uniforme da modernidade. O progresso técnico e científico em vez de criar um mundo de receptividade e fruição do prazer só gerou a opressão, a miséria e o sofrimento a tal ponto que nos acostumamos a eles. É a completa reificação do homem. Todos os dias nos deparamos com mendigos, violência nas ruas, favelas, injustiças, pobreza, fome até nos tornarmos insensíveis ao sofrimento alheio. Essa é uma característica de nossa sociedade de massas.

             Para Rousseau é por causa de seu amor-próprio, gerado pela reflexão, que o homem é capaz de pensar primeiro em si e, vendo sofrer seu semelhante, dizer “Morre, se queres; estou em segurança”. Em seu amor próprio o homem contemporâneo perdeu este sentimento natural de piedade na medida em que o mal tornou-se uma característica da experiência moderna. Dessa forma Carter, como um típico homem moderno, perdeu esse sentimento se acostumando a barbárie de nossa época.

              Para Rousseau o homem só se tornou homem, ou seja, tornou-se humano pela piedade. A piedade é um sentimento natural presente em todos os homens. Dessa virtude natural é que resultam as virtudes sociais como a generosidade, a clemência, a bondade, a benquerença. É a piedade que nos leva “sem reflexão em socorro daqueles que vemos sofrer; é ela que, no estado de natureza, faz as vezes de lei, de costume e de virtude, com a vantagem de que ninguém é tentado a desobedecer a sua doce voz; é ela que impede todo selvagem robusto de arrebatar a uma criança fraca ou a um velho enfermo sua subsistência adquirida com sacrifício, se ele mesmo espera poder encontrar a sua alhures; é ela que, em vez desta máxima sublime de justiça raciocinada, ‘faça a outrem o que queres que te façam, inspira a todos os homens esta outra máxima de bondade natural, bem menos perfeita, porém mais útil, talvez, do que a precedente: faze o teu bem com o menor mal possível a outrem” ¹ 1

Rousseau, J Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens.

Afinal, qual é o problema da educação?

Por Michel Aires de Souza

O governo culpa os professores pela má qualidade do ensino, mas não enxerga o verdadeiro problema e tenta resolvê-lo com receitas prontas e acabadas. Em São Paulo o governo criou a progressão continuada, os ciclos, a avaliação contínua, a recuperação paralela, deu um novo sentido ao conceito de escola (a escola aprendente), deu também um novo sentido ao papel do coordenador. Contudo, nenhuma dessas ações surtiu efeito. As avaliações externas como Saresp, Saeb, Prova Brasil demonstram resultados pífios. O governo se exime da culpa e diz que o problema está na formação dos professores.  Desde então tem feito esforços para dar uma melhor formação aos professores através de cursos e de uma prática reflexiva nas HTPCs. Para o governo, os problemas educacionais são constantemente reduzidos a questões que podem ser resolvidas no âmbito do indivíduo, do esforço pessoal do professor. O professor é visto como o Messias da educação; é um ser dotado de inesgotável força de vontade que deve estar permanente disposto a se superar no cumprimento de sua missão. O importante é que cada um faça sua parte para que a educação melhore. O que o governo ainda não enxergou, por miopia, é que os problemas da educação são problemas políticos, sociais e culturais. São vários os fatores que levam o aluno a um déficit de aprendizagem. Citareimos apenas alguns deles:

Primeiro, é um problema de política pedagógica, pois institui a progressão continuada, que em termos práticos torna-se progressão automática. O aluno perde a motivação para aprender, pois sabe que não precisará fazer esforços para passar de ano. O professor torna-se impotente diante dessa situação e perde sua autoridade, pois a nota que ele aufere ao aluno não tem valor Em conseqüência disso, a indisciplina se institucionaliza. A escola torna-se o local do encontro, da amizade, do namoro, da sociabilidade, mas quase nunca do ensino. Outro problema ligado aos ciclos e à progressão continuada é fato de as crianças chegarem ao final do primeiro ciclo sem saber ler e escrever ou chegar ao ensino médio analfabetos funcionais, sendo incapazes de interpretar um texto.  Isso ocorre porque o aluno não consegue  aprender novas competências por causa de déficits de aprendizagem em séries anteriores. Ele não conseguiu assimilar os conteúdos e habilidades necessários para seguir em frente. Em outras palavras, o aluno não consegue desenvolver os esquemas mentais e saberes necessários exigidos porque não conseguiu aprender as competências básicas exigidas a sua série atual.

Segundo, o problema da educação é também um problema estrutural. A escola pública no Brasil tem um modelo arquitetônico prisional. Michel Foucault, filósofo Francês, já havia estudados os males que este tipo de arquitetura causa ao indivíduo. Para ele, este tipo de arquitetura é uma arquitetura de esquadrinhamento, da observação, da disciplina, do controle, cujo único objetivo e controlar os indivíduos criando seres dóceis e serviçais ao mercado de trabalho. O aluno  da escola pública vive numa prisão. A falta de comprometimento  nos estudos,  a desmotivação, a falta de interesse do aluno é em boa parte criada por esta estrutura prisional, onde as aulas tornam-se monótonas e chatas. Falta  a escola pública  uma estrutura material para que o aluno goste de estudar, como áreas verdes, quadras, equipamentos, salas de estudo, salas de teatro, salas de vídeo, salas de ginástica, biblioteca, materiais para uso em sala de aula, etc.  Um ambiente agradável com uma estrutura impecável é imprescindível para que o aluno aprenda.

Terceiro, o problema da educação é também social. Os problemas educacionais refletem as contradições da própria sociedade. Na base da educação há uma família geralmente carente material e intelectualmente. Pobreza, fome,  falta de trabalho e falta de perspectiva são fatores que minam a educação. O Brasil é um das dez maiores economias do mundo, mas em indicadores sociais ela está ao lado de Botsuana e Moçambique: 30 milhões vivem em estado de miséria; 80 milhões não conseguem consumir as 2240 calorias mínimas exigidas para uma vida normal; 60% dos trabalhadores no Brasil ganham até um salário mínimo. 50% da riqueza concentram-se nas mãos de 10% da população que ganham mais de dez salários. São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, não foge a estes dados. O subemprego é uma realidade da grande maioria das famílias paulistas: faxineiras, camelos, lavadores de carro, pedreiros, pintores, eletricistas ocasionais são comuns. Tais pessoas apresentam baixo nível de consumo e renda e baixo nível educacional sendo incapazes de acompanhar seus filhos e dar uma boa assistência a eles.

Quarto, é um problema de política salarial e de valorização do professor. Os baixos salários, o descaso, o desrespeito, a imposição de políticas pedagógicas; tudo isso somado tem reflexos na educação. Os bons salários de alguns grupos de funcionários públicos, como os de juízes, promotores e políticos é provocado pelo subdesenvolvimento de outros grupos, como o de professores. Para que alguns grupos possam receber melhores salários e acumular patrimônios outros grupos necessitam ser explorados e sacrificados. O acesso aos benefícios está desigualmente repartido. Em conseqüência dos baixos salários e dos descasos com a classe, o professor perde a motivação, não tem prazer em dar aulas, resigna-se, não fazendo um bom trabalho.

Quinto, é um problema cultural, pois a sociedade não faz cobranças à escola. Nas escolas públicas não há colegiados, não há conselhos, não há grêmios escolares. As desvalorizações por parte da sociedade brasileira em relação ao saber e ao conhecimento têm reflexos em toda estrutura educacional. Uma sociedade que não valoriza o conhecimento é uma sociedade sem história, sem memória. A participação da sociedade como um todo nas questões educacionais deve ser o cimento que constrói a nossa cultura, que defende as sociedades locais, que preserve nossa memória e consciência contra as ameaças de grupos , de ideologias e de interesses políticos. A participação da comunidade na escola é imprescindível para melhorar a qualidade do ensino e para gerar a consciência política e reflexiva sobre os fatos.

Como vimos, a educação não pode se resolvido no âmbito do microcosmo da escola e do esforço individual de cada um. O governo reduz o problema da educação em termos operacionais, ao voluntarismo. “Escola da família”, “amigo da escola”, “escola para todos” são termos que nos mostram que cabe a comunidade e as professores resolver os problemas da educação. As idéias vinculadas à TV de um professor esforçado, voluntarioso, feliz, decidido a resolver os problemas da educação não condiz com a realidade. Educação não é auto-ajuda Os problemas educacionais não podem ser resolvidos apenas no âmbito do individuo, da comunidade e do esforço pessoal do professor. O problema da educação é antes de tudo um problema político e social.

Michel Aires de Souza

O futuro do Trabalho

 Por Michel Aires de Souza

Marx, Weber e Durkhein conceberam o conceito de trabalho como a peça fundamental de seus pensamentos; isso porque o trabalho sempre foi o principal fator que organizou nossa sociedade. Contudo, atualmente  o trabalho se fragmentou, já não é mais o mesmo.  O trabalho produtivo da indústria, cujos princípios norteadores eram o fordismo e o taylorismo, que valorizavam a produtividade, controlando os movimentos das máquinas e dos homens no processo de produção, tende a desaparecer. Não existe mais aquele trabalho mecânico, repetitivo, autômato que Charles Chaplin  eternizou nas telas do cinema.  Neste dia, primeiro de maio, dia do trabalho, nada melhor do que fazer uma reflexão sobre o conceito de trabalho. Qual o futuro do trabalho? Qual o nosso papel enquanto futuros trabalhadores? O que as empresas esperam dos estudantes de hoje que estão entrando no mercado de trabalho?  
    O mundo mudou ao longo do século XX.  Hoje têm sido criadas novas modalidades de ocupação. Pode ser que num futuro próximo todas as esferas da vida social sejam mecanizadas A perspectiva de mudanças nos modos e nas relações de produção, com a mecanização e automatização em todas as esferas da vida social, deve possibilitar uma nova forma histórica do conceito de trabalho. Temos que pensar o conceito de trabalho a partir de um novo paradigma, que leve em consideração a sociedade do conhecimento e da informação. O trabalho do século XXI não será mais mecânico e produtivo, mas será intelectual e criativo.   Atualmente com o desemprego estrutural (desemprego causado pela crescente mecanização) tem surgido cada vez mais o trabalho como prestação de serviço. O papel do trabalhador é prestar serviço produzindo idéias, resolvendo problemas, criando soluções.   Esse é o novo paradigma para se pensar o trabalho a partir do século XXI. O trabalho automático, irritante, desprazeiroso e produtivo será abolido e substituído pelo trabalho lúdico, intelectual, imaginativo.  O trabalhador do futuro não terá mais carteira assinada, mas deve prestar serviços às empresas, órgãos e instituições privadas e públicas. Ele deve ter como sua principal característica à capacidade de mobilizar esquemas mentais e conhecimentos para resolver problemas, de analisar situações e fazer diagnósticos, de trabalhar em equipe, de saber proceder e agir com criatividade em qualquer situação, de fazer inferências e sempre ser capaz de aprender continuamente. O sociólogo italiano Domenico Masi especialista no assunto ilustra bem como será o trabalho no futuro. “O trabalho braçal a máquina faz; o mental o computador realiza; ao ser humano cabe ter idéias e ser criativo”. 
    O termo “home Office” deve tornar-se uma palavra comum no futuro. Trabalhar em casa com a mente e com o computador ou um notebook deve ser o espaço de produção e criação. Segundo José Pastore sociólogo especialista em relações do trabalho, professor da Universidade de São Paulo, os serviços que mais se expandem são os de economia intangível e que dependem muito mais do talento intelectual do que da força física. É intangível, pois os papéis exercidos pelos empregados e empregadores não são claramente divididos e identificáveis. Essa é uma tendência no mundo todo, os profissionais de hoje empenham-se em atividades especializadas e atuam como pessoas jurídicas. Hoje se trabalha como cooperado, por projeto, à distância, como free lancer, intermitente, coloborativo, etc. No mercado de trabalho não há mais lugar para quem não sabe pensar; para quem não gosta de aprender e estar constantemente atualizado; para quem não tem flexibilidade para se adaptar a um ambiente em constante mudança. Não há mais lugar para aquele que não quer transformar-se para melhor, em progredir e aperfeiçoar-se.

Relacionamento interpessoal nas escolas

assedio_moralPor Michel Aires de Souza

O grande problema das escolas é o relacionamento interpessoal, que as impedem de formar verdadeiras equipes para melhoria do ensino. O relacionamento entre gestão e professores é determinado por relações de poder. O poder corrói os relacionamentos. Em muitas escolas o grupo de professores é dirigido por pessoas que agem de maneira semelhante a oficiais do exército. Para ser um bom gestor de escola é necessário, antes de tudo, ser um educador. É necessário acreditar na capacidade do ser humano em transformar-se para melhor, em progredir e aperfeiçoar-se. Todo gestor deve se interessar pelo professor, criando condições para que este cresça e se realize. O bom gestor é aquele que influencia por suas idéias e ações o pensamento e atitudes dos outros. No entanto, ele tem que saber ouvir com empatia. Tem que ser compreensivo, flexível, conciliador e harmonizador. Ele tem que ser sensível às transformações de condição de seu grupo. Ele deve fazer menos verificação e controle dos membros do grupo e dar mais apoio a eles. Ele tem que ter maturidade emocional para criar um clima emocional na escola capaz de manter o grupo unido. Em outras palavras, para liderar é necessário servir. O segredo da liderança é o relacionamento.
             Na grande maioria das escolas os gestores administram num ambiente autocrático, onde os líderes e coordenadores utilizam o poder coercitivo decidindo o que o grupo deve fazer e como fazer. Neste ambiente surgem mais hostilidades, rivalidades e agressividades. No entanto a experiência nos mostra que o ambiente democrático é mais eficaz. Neste ambiente as decisões são tomadas por consenso da maioria, cabendo ao coordenador ou líder apenas a tarefa de orientar a atividade. O resultado disso é uma melhor produtividade, maior amizade e espírito de equipe, evidenciando apreciação mútua entre os membros do grupo e revelando maior satisfação.
            Do nosso ponto de vista, portanto, a escola não deve ser um regime militar. O bom gestor é aquele que ouve, participa, analisa, orienta, educa, treina e motiva. É somente com estes princípios que ele consegue a cooperação voluntária de seu grupo. A eficiência dos educadores está diretamente ligada à eficiência dos gestores, pois estes últimos são responsáveis por criar uma boa equipe de trabalho, numa atmosfera cooperativa e amistosa, onde haja colaboração e lealdade do grupo.

Dez atitudes para um desenvolvimento sustentável

Por Michel Aires de Souzaipcc1

Segundo o relatório do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas elaborado pela ONU, com a ajuda de 2,5 mil cientistas de vários países, o maior problema que enfrentamos hoje é o da preservação dos recursos naturais para as gerações futuras. Se a exploração predatória continuar, não teremos fonte de águas e de energias, ar puro e nem terras para cultivar e preservar a vida. O grande feito deste relatório foi comprovar que a humanidade é responsável pelo efeito estufa ao adicionar toneladas de gases na atmosfera, contrariando a opinião de muitos americanos, como Bush, que diziam que a atividade humana no aquecimento global não estava comprovada. No século XX a temperatura subiu 0,7 grau Celsius e houve um aumento de 35% de dióxido de carbono na atmosfera. Nos próximos 20 anos a temperatura deve crescer 0,4 graus. Até 2100 o planeta deve aquecer 2,9 °C.  Segundo estimativas o aumento do nível do mar deve ser de 38 centímetros e na pior das hipóteses de 59 centímetros. Os oceanos já subiram 17 centímetros no último século.  Para os cientistas o aquecimento global é inequivoco, uma vez que é evidente o aumento da temperatura global, o derretimento de geleiras e o aumento do nível do mar.

       Atualmente os países ricos como Estados Unidos e países europeus consomem 70% da energia, 75% dos metais e 85% da produção de madeira. Somente os Estados Unidos é responsável por 35% das emissões de gases poluentes. Se não houver mudanças nesses países, o relatório prevê que as conseqüências serão catastróficas. Se o aquecimento global continuar, no futuro deve faltar água potável em todas as regiões do planeta. Nas regiões da Ásia e da África, até 2020, 250 milhões de pessoas sentirão essa escassez. O derretimento das geleiras no pólo sul e norte causarão inundações; muitas ilhas e cidades costeiras desaparecerão.  O aumento da acidez da água, devido ao dióxido de carbono, deve diminuir a oferta de peixes.  20% a 40% das espécies vegetais e animais serão extintas.  As florestas podem ser substituídas por savanas. Parte da Floresta Amazônica pode tornar-se cerrado. Os lençóis freáticos e os açudes não existirão mais. As doenças endêmicas como cólera e Tifo decorrentes de inundações serão comuns. Se este diagnóstico é correto, o que devemos fazer para preservar nossa existência? Como conciliar desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e preservação da natureza?

       A resposta para esse problema chama-se desenvolvimento sustentável. Dez atitudes são necessárias para preservar a natureza e a espécie humana aqui na terra. A primeira atitude é reduzir a dependência do planeta de combustíveis fósseis e promover e ampliar o uso de energias renováveis. Os governos devem incentivar o uso de energias alternativas como energia solar, energia dos ventos e a polêmica energia nuclear. Além disso, devem incentivar a produção de etanol não somente para produzir combustível, mas também produzir eletricidade.  A segunda atitude é evitar o desmatamento e incentivar o reflorestamento. A limpeza do ar do gás carbônico, responsável por 70% do aquecimento global, depende da preservação das florestas tropicais e do reflorestamento. A terceira atitude é criar leis e regras para o uso e proteção da biodiversidade e para o combate do aquecimento global. As políticas públicas devem criar novos padrões para a exploração da biodiversidade, assim como novas regras para a agricultura, industria, construção civil e transporte.   A quarta atitude é fazer o uso racional da água e da energia, evitando o desperdício. As disputas e guerras no futuro não serão por terras ou petróleo, mas serão por água. Atualmente 2 bilhões de pessoas sofrem com a falta de água potável, as previsões afirmam que daqui 20 anos serão 4 bilhões de pessoas.     A quinta atitude é utilizar apenas madeiras certificadas, evitando assim o desmatamento predatório. Segundo dados do Ibama 86% das madeiras extraídas no Brasil são irregulares, mas este cenário está mudando, uma vez que vários países estão proibindo a importação de madeiras não-certificadas. A sexta atitude é controlar a poluição do ar e da água, tratando rios, esgotos e afluentes industriais. A preservação da água e do ar que bebemos e respiramos depende de políticas publicas de controle desses bens naturais.    A sétima atitude é reciclar o lixo. Essa é uma ação que tem se tornado uma prática em vários países. Já é famoso o princípio dos “3R”: reduzir, reutilizar e reciclar. Reduzir a produção de resíduos; reutilizar materiais produzidos pela indústria e reciclar o lixo descartado após o consumo.  A oitava atitude é investir no transporte coletivo, preferencialmente trens e metros elétricos, pois os carros são os maiores poluidores do meio ambiente em todo o planeta. A nona atitude é combater o tráfico de animais silvestres e preservar os habitats naturais. A biodiversidade deve ser preservada uma vez que ela é à base das atividades agrícolas, pecuárias, pesqueiras e florestais, produzindo remédios, alimento e roupas. A décima atitude é desenvolver a consciência ambiental. Os governos devem ajudar a população a ganhar consciência do aquecimento global, incentivando a mudança no estilo de vida, mostrando que o problema do meio ambiente não é um problema político, mas moral e que de sua resolução depende nossa sobrevivência. Através dessas dez atitudes poderemos conciliar desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e preservação da natureza.  

Os dados do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas presentes neste texto foram extraidos do “Dossiê Aquecimento Global” produzido pela editora Abril, cujo conteúdo é parte do Caderno Atualidades Vestibular do Guia do Estudante 2008.

http://www.ipcc.ch/languages/french.htm – Francês

Por que os jovens usam drogas?


Por Michel Aires de Souza

drogas1Tornou-se comum para psicólogos e psiquiatras acreditarem que há uma relação causal entre o uso de drogas e a desestrutura familiar ou a problemas financeiros. Mas isso não é uma verdade. Os dados nos mostram  que  é  cada  vez maior o uso de drogas em famílias abastadas, aparentemente estruturadas, com diálogo, compreensão e afeto. Os dados derrubam a tese de que um problema desta ordem pode acometer apenas famílias desorganizadas, pobres e amorais. Citaremos aqui o caso do Crack que é comumente associada à classe de baixa renda, em particular, associada a menores abandonados, prostitutas e mendigos. “O crescimento do consumo de crack entre jovens abastados pode ser recente, mas avassalador. Por mês, Rubens de Campos filho atende 400 pessoas com os mais diversos distúrbios, como depressão, estresse, fadiga. Problemas com drogas representam um terço do movimento do seu consultório, 70% fumam crack, todos de classe média e alta”.  (UCHÔA, 1996, p.133)

         Segundo Marco Antônio Uchôa, jornalista da Globo, o primeiro sinal significativo de que o crack invadiu a família de classe média foi dado em outubro de 1995 com a morte de Cristiane Gaidies, uma moça de 20 anos, filha de uma psicóloga e um dentista.  Ela foi morta por tentar roubar um toca fitas. A família tentou de tudo, diálogos, internações, mudanças, mas nada adiantou. “Antes de ser assassinada, a moça de cabelos cor de mel, olhos expressivos e sorriso claro morava com outros viciados em crack num casarão abandonado na mesma rua onde morreu (…). O casarão sujo e úmido, é a referência de crack nas imediações da avenida Paulista e abriga mendigos, prostitutas, travestis e viciados”. (UCHÔA, 1996, p.133). 

       Se as drogas não estão associadas à desestrutura familiar ou à carência material e intelectual, então, por que os jovens usam drogas? O problema das drogas não é somente um problema familiar, uma vez que ela atinge famílias bem estruturadas, com afeto e boa educação.  O uso de drogas são os meios que os indivíduos usam para buscar mais prazer do que a sociedade oferece e para aliviarem suas frustrações e insatisfações com uma sociedade que perdeu seus valores, que se tornou relativista e fragmentária. Os ritmos de mudança na sociedade contemporânea são muito rápidos, deixando os indivíduos desorientados e pressionados pelas exigências do dia-a-dia. Vivemos uma época onde a família como formadora da individualidade se fragmentou, onde não há mais valores pré-estabelecidos, onde a ética individualista do lucro tornou-se a moral social, onde a racionalidade do capital transformou o consumo em necessidade orgânica e onde Deus se tornou mercadoria barata.  Os jovens  usam drogas porque não há mais rumos pré-estabelecidos, não há mais valores, não há mais limites, somente o que importa é a busca do prazer imediato. A sociedade criou um mundo consumista onde os jovens vivem de prazeres imediatos e são criados sem frustrações diferentemente de seus pais. Eles estão  desorientados, não têm limites e sofrem a pressão do mundo externo com suas regras e normas.  As drogas são os meios que o indivíduo busca para aumentar o nível de prazer que as coisas não podem oferecer e para se livrar das tensões dos estímulos causados por uma realidade repressiva, que desumanizou o homem e humanizou o dinheiro e os bens materiais. O homem se tornou apenas uma coisa, um objeto, um parafuso em uma engrenagem. Ele é apenas um número: um número de RG, um número de CPF, um número na escola, um número na empresa, um número na guerra. É algo substituível, o puro nada. Dessa forma, as drogas se proliferam como narcóticos que aliviam as tensões, causam prazer e fornecem um “mundo melhor” para se viver. Elas produzem um alívio momentâneo, mas potente, que altera o funcionamento bioquímico do cérebro, possibilitando a sensação de prazer, mas que as vezes tem se tornado um caminho sem volta.

Bibliografia

UCHOA, Marco.A. Crack: o caminho das pedras. Ática: São paulo, 1996.

O conceito de criança em Nietzsche

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tales-meu-filho2Todo adulto gostaria de se tornar uma eterna criança. A criança é pura espontaneidade, necessidade, liberdade, não sente culpa, não tem malicia, é inocência e sua vida consiste em brincar. Já o adulto é consciente de seus atos, sabe que para viver em sociedade deve abandonar uma grande parte de seus sonhos e desejos, pois deve ser dócil, serviçal, responsável e trabalhador. O homem civilizado vive uma vida inautêntica. É um ser não-livre, moral, que sente culpa e remorso pelos seus atos.

     Para Nietzsche a criança representa o espírito livre, pois ela é  a pura vontade, é  o puro desejo, é a pura liberdade. A criança é a afirmação, mas também é o esquecimento. Ela deseja a vida, o prazer e a brincadeira, mas não se sente culpada pelo que faz.  A criança representa para Nietzsche a superação dos valores morais e a criação de novos valores.

       No seu livro “Assim falou Zarathustra” Nietzsche afirma que o espírito tem que passar por três transformações para se tornar criança.  O espírito primeiro deve ser camelo, depois  deve se transformar em leão, e o leão, finalmente, em criança.

     O camelo é aquele que deve suportar tudo, ele é um animal de carga. A vida é uma carga pesada. A vida é dor, sofrimento, labuta. É um mal necessário. Devemos amar a dor tal como amamos o prazer, pois não há como evitá-la. É o que Nietzsche chama de “Amor-fati”. 

           Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: – assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. “Amor fati” [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor.  Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja ‘desviar o olhar’! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz sim.

           Dessa forma,  Nietzsche afirma que devemos aceitar a dor e o sofrimento como parte deste mundo, sem a qual o mundo não seria o que é.  O feio, o mal, a dor, a miséria, a guerra, a expoliação, a dilação e o  sofrimento  são inexoráveis, uma vez que são a essência da vida.   A mentira, a guerra  e o que chamamos mal contribuiram muito mais para o progresso e aperfeiçoamento humano do que a verdade e a paz.   Por estas razões, primeiro temos que ser camelos para suportar todo o peso inerente à vida.         

   O camelo é aquele que segue ordens, possui um senhor. Seu senhor é o dragão, o que diz: “Tu deves”. 

      O dragão são os valores, as tradições, as leis, as regras e normas sociais. Onde há regras, há moral. O dragão representa aquele que manda. Mas o camelo quer se transformar em Leão. Para isso o Leão deve derrotar o Dragão.

             “Tu deves”, assim se chama o grande Dragão; mas o espírito do Leão diz: “Eu quero”

      Superar o Dragão significa superar os valores impostos, as regras, a culpa, o remorso pelos nossos atos, as dificuldades, os percalços, a dor, a miséria inerente à vida. Devemos deixar de ser camelos, para nos tornarmos senhores.

          O “tu deves”, está postado no seu caminho, como animal escamoso de áureo fulgor; e em cada uma das suas escamas brilha em douradas letras: “tu deves”

       O leão é aquele que não é subjugado por nada, é livre, não há moral, culpa, remorso. O leão é força, potência, poder, riqueza, abundância. É o destruidor dos valores. Mas o leão ainda não é capaz de criar novos valores.

           Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode o poder do leão. 

          Quando nos tornamos crianças não estamos preso a nada, somos espontaneidade, liberdade e vontade. A criança não entende o mundo dos adultos que a proíbe de fazer algo, faz porque deseja, quer, faz sem pensar. Quando o espírito se transformou em camelo, o homem sufocou seus afetos, seus desejos, suas paixões. Por isso, ele deve se tornar uma nova criança libertando-se do peso, da carga que nos impõe a vida e dos valores que nos subjugam.  A criança é aquele que tem o poder da criação de novos valores.

         A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação

       Ser criança é tornar-se livre.   Nietzsche não vê a vida como algo trágico. Suas palavras negativas em relação à vida, que podem ser verificadas em seus textos, representam na verdade um prenúncio de liberdade, de superação da condição humana. A moral, a religião, a metafísica que supostamente afirmam a autonomia da vontade, tornando o homem responsável pelos seus atos e arrogando-se no direito de julgá-lo, na verdade representam o cárcere da alma. Nietzsche se afasta dessa tradição moral e vê a vida como obra de arte. Na vida não há regras. O mundo é estético e não moral. O mundo é fluxo, devir, é o caos de formas incessantes, eternamente mudando, eternamente criando e recriando. O mundo é como uma criança brincando, eternamente construindo e destruindo. Dessa concepção estética do mundo surge o fundamento da autonomia humana. O homem é um eterno criador de valores. O homem tem a liberdade de criar e recriar novos valores, fazendo e desfazendo avaliações. Ele deve ser como uma criança ao brincar, pois construir e destruir faz parte da natureza infantil.  Por esta razão,  a criança está além do bem e do mal.

  

A importância do pensamento conceitual

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deleuze_linksO que difere o senso comum da consciência filosófica ou científica é o fato de que os filósofos e cientistas compreendem os fenômenos através de conceitos. O senso comum, por sua vez,  parte de opiniões, crenças e desejos para compreendê-los.  Do nosso ponto de vista, é necessário ensinar os alunos a pensarem através de conceitos. Se nós aumentarmos o vocabulário filosófico e científico dos alunos, nós estaremos aumentando sua visão de mundo.   Uma das competências exigidas pelo Enem e contempladas pela nova proposta curricular do estado de São paulo é assimilação e construção de conceitos. É necessário que o aluno saiba construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas

      Na época moderna Kant e Hegel mostraram o papel do conceito como instrumento privilegiado do conhecimento.  O rigor do conceito é indispensável para a filosofia e para a ciência.  Nós só conhecemos bem um sistema filosófico ou uma teoria cientifica quando entendemos bem seus conceitos.  A palavra conceito vem do latim conceptus, ação de conter, concepção. O conceito é uma idéia ou noção que formamos em nossa mente acerca de qualquer coisa. Ele é formado pela reunião de características da própria coisa, seja um objeto real ou abstrato. Por isso, o conceito torna possível a descrição, a classificação e a previsão dos objetos cognoscíveis. Devemos lembrar ainda que todo conceito exige uma definição. Não há conceito sem definição. Esta palavra vem do latin definitio, que significa delimitação, limitação, determinação.  Definir é enunciar todas as características ou qualidades de uma coisa. É uma operação pela qual se determina, se delimita e se enuncia a compreensão de um conceito. Para Aristóteles, filósofo da Grécia antiga, a definição faz conhecer o que é uma coisa. Dizer o que é uma coisa é o mesmo que dar sua definição.   A função do conceito é a comunicação, tornar claro aquilo que era obscuro através de uma definição. Para Deleuze, filósofo francês do século XX, o conceito não é apenas uma idéia generalizante, mas também institui um acontecimento, que permite reaprender a ver o mundo, dar uma  “ressignificação ao mundo”. Através dos conceitos o aluno deve ampliar sua visão de mundo. 

O Ensino Lúdico

 

p_ludico1Os alunos em sua grande maioria não têm prazer em estudar. Eles têm sentimentos de amor e ódio em relação à escola.  De amor, porque ali é o local do encontro, da amizade, do namoro. De ódio, porque é local da obrigação, da disciplina, do dever, do trabalho.  A escola é o local da sociabilidade, mas quase nunca do ensino. O ensino é chato, sem novidades, desprazeroso. As aulas consistem quase sempre em copiar o que o professor passou na lousa. Quando o professor ensina, os alunos conversam, apáticos à explicação, não se interessam por nada. O que fazer? Como criar o gosto pelo estudo? Como quebrar a barreira da apatia? Nós educadores  pensamos que a função da educação é criar um ambiente lúdico para o ensino. Todos nós professores sentimos prazer pelo conhecimento. Também achamos que o conhecimento deve ser um prazer para o aluno. Einstein dizia que a mente avança até o ponto onde pode chegar, mas depois passa para uma dimensão superior, sem saber como lá chegou. Este salto é dado pela imaginação. Todas as grandes descobertas realizam este salto.   A educação deve atingir a imaginação através do jogo, da brincadeira, das imagens, dos sons, do tato. O conhecimento deve se transformar num prazer da imaginação.  Para Einstein a imaginação é mais importante do que o conhecimento. Ela está na base de todas as descobertas científicas.  A educação deve atingir as emoções do aluno através da imaginação. O aluno deve ter prazer em estudar. A perplexidade, o espanto, o desejo de compreender, a curiosidade são sentimentos que estão na raiz de todo conhecimento. Para Einstein, a coisa mais bela que o homem pode experimentar é o misterioso. É esta a emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte. 

 

 

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