Todo adulto gostaria de se tornar uma eterna criança. A criança é pura espontaneidade, necessidade, liberdade, não sente culpa, não tem malicia, é inocência e sua vida consiste em brincar. Já o adulto é consciente de seus atos, sabe que para viver em sociedade deve abandonar uma grande parte de seus sonhos e desejos, pois deve ser dócil, serviçal, responsável e trabalhador. O homem civilizado vive uma vida inautêntica. É um ser não-livre, moral, que sente culpa e remorso pelos seus atos.
Para Nietzsche a criança representa o espírito livre, pois ela é a pura vontade, é o puro desejo, é a pura liberdade. A criança é a afirmação, mas também é o esquecimento. Ela deseja a vida, o prazer e a brincadeira, mas não se sente culpada pelo que faz. A criança representa para Nietzsche a superação dos valores morais e a criação de novos valores.
No seu livro “Assim falou Zarathustra” Nietzsche afirma que o espírito tem que passar por três transformações para se tornar criança. O espírito primeiro deve ser camelo, depois deve se transformar em leão, e o leão, finalmente, em criança.
O camelo é aquele que deve suportar tudo, ele é um animal de carga. A vida é uma carga pesada. A vida é dor, sofrimento, labuta. É um mal necessário. Devemos amar a dor tal como amamos o prazer, pois não há como evitá-la. É o que Nietzsche chama de “Amor-fati”.
Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: – assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. “Amor fati” [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor. Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja ‘desviar o olhar’! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz sim.
Dessa forma, Nietzsche afirma que devemos aceitar a dor e o sofrimento como parte deste mundo, sem a qual o mundo não seria o que é. O feio, o mal, a dor, a miséria, a guerra, a expoliação, a dilação e o sofrimento são inexoráveis, uma vez que são a essência da vida. A mentira, a guerra e o que chamamos mal contribuiram muito mais para o progresso e aperfeiçoamento humano do que a verdade e a paz. Por estas razões, primeiro temos que ser camelos para suportar todo o peso inerente à vida.
O camelo é aquele que segue ordens, possui um senhor. Seu senhor é o dragão, o que diz: “Tu deves”.
O dragão são os valores, as tradições, as leis, as regras e normas sociais. Onde há regras, há moral. O dragão representa aquele que manda. Mas o camelo quer se transformar em Leão. Para isso o Leão deve derrotar o Dragão.
“Tu deves”, assim se chama o grande Dragão; mas o espírito do Leão diz: “Eu quero”
Superar o Dragão significa superar os valores impostos, as regras, a culpa, o remorso pelos nossos atos, as dificuldades, os percalços, a dor, a miséria inerente à vida. Devemos deixar de ser camelos, para nos tornarmos senhores.
O “tu deves”, está postado no seu caminho, como animal escamoso de áureo fulgor; e em cada uma das suas escamas brilha em douradas letras: “tu deves”
O leão é aquele que não é subjugado por nada, é livre, não há moral, culpa, remorso. O leão é força, potência, poder, riqueza, abundância. É o destruidor dos valores. Mas o leão ainda não é capaz de criar novos valores.
Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode o poder do leão.
Quando nos tornamos crianças não estamos preso a nada, somos espontaneidade, liberdade e vontade. A criança não entende o mundo dos adultos que a proíbe de fazer algo, faz porque deseja, quer, faz sem pensar. Quando o espírito se transformou em camelo, o homem sufocou seus afetos, seus desejos, suas paixões. Por isso, ele deve se tornar uma nova criança libertando-se do peso, da carga que nos impõe a vida e dos valores que nos subjugam. A criança é aquele que tem o poder da criação de novos valores.
A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação
Ser criança é tornar-se livre. Nietzsche não vê a vida como algo trágico. Suas palavras negativas em relação à vida, que podem ser verificadas em seus textos, representam na verdade um prenúncio de liberdade, de superação da condição humana. A moral, a religião, a metafísica que supostamente afirmam a autonomia da vontade, tornando o homem responsável pelos seus atos e arrogando-se no direito de julgá-lo, na verdade representam o cárcere da alma. Nietzsche se afasta dessa tradição moral e vê a vida como obra de arte. Na vida não há regras. O mundo é estético e não moral. O mundo é fluxo, devir, é o caos de formas incessantes, eternamente mudando, eternamente criando e recriando. O mundo é como uma criança brincando, eternamente construindo e destruindo. Dessa concepção estética do mundo surge o fundamento da autonomia humana. O homem é um eterno criador de valores. O homem tem a liberdade de criar e recriar novos valores, fazendo e desfazendo avaliações. Ele deve ser como uma criança ao brincar, pois construir e destruir faz parte da natureza infantil. Por esta razão, a criança está além do bem e do mal.
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Por que a transmutação do espírito da condição de leão para a condição de criança sugere a existência de uma santa afirmação?
Prezado Robson,
Porque a vida deve ser afirmada constantemente, devemos aceitá-la tal como ela é, com todos os seus percalços, com todos os seus problemas, com toda sua fealdade. Devemos santificá-la.
Abraços
Michel Aires de Souza